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Artistas expressam visões de Brasília além das palavras

Mímicos, músicos, estilistas e artistas plásticos usam gestos, sons e cores para representar a capital

21/04/2026 às 14:48
Por: Redação

Há 66 anos, Juscelino Kubitschek, em seu primeiro discurso dedicado à nova capital do Brasil, admitiu a dificuldade em encontrar palavras para descrever o que sentia naquele momento considerado o mais importante de sua trajetória pública. Mais de seis décadas após a fundação de Brasília, diferentes artistas continuam a buscar inspiração em múltiplas formas e linguagens para representar a complexidade da cidade, recorrendo a gestos, movimentos, sons e cores para traduzir o que consideram uma "candanguice" própria do local.

 

Entre esses artistas encontra-se o mímico Miqueias Paz, de 62 anos, que utiliza o silêncio e a expressão corporal para dar vida às características da cidade. Ele nasceu em outro estado e chegou a Brasília aos cinco anos com sua família. Descobriu a paixão pelo teatro durante a adolescência, envolvido com encenações que traziam à tona experiências de pessoas vindas das periferias e de migrantes que buscavam um novo lar na capital.

 

Nas décadas de 1980, ao apresentar espetáculos como "Sonho de um retirante" e "História do homem", Miqueias relembra que suas performances eram inicialmente direcionadas a agentes ligados à ditadura vigente, que supervisionavam, censuravam e classificavam as produções artísticas.

 

O início da carreira de Miqueias no teatro aconteceu em Taguatinga, quando tinha 16 anos, influenciado por grupos como o H-Papanatas, que levavam arte à Brasília ainda jovem. Com o passar do tempo, passou a atuar não apenas em palcos tradicionais, mas também em espaços públicos, como ruas e ocupações, levando conscientização sobre direitos, sempre sem utilizar palavras, apenas gestos e expressões.

 

Ele relata que o envolvimento com a mímica o tornou alvo de microviolências, incluindo abordagens frequentes de policiais. "Eu já começava a fazer mímica intuitivamente a partir das minhas histórias sociais: as coisas que eu vivia, que eu sentia, o ônibus apertado, a falta de grana. Esse passou a ser um eixo do meu trabalho", afirma.


 

No ano de 1984, o artista ficou conhecido por celebrar o fim da ditadura fazendo o gesto de um coração na rampa do Congresso Nacional. Esse ato deu maior visibilidade a Miqueias diante dos movimentos sociais e, a partir daí, ele passou a receber muitos convites de sindicatos. Atualmente, Miqueias se dedica ao próprio espaço teatral, chamado Mimo, situado na comunidade periférica 26 de setembro, cujo objetivo é acolher e apoiar artistas ambulantes da capital.

 

Sonoridades inventadas para uma cidade criada

 

A música também se tornou um canal para expressar Brasília. O grupo "Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro", fundado pelo pernambucano Tico Magalhães, nasceu do impacto causado pelo Cerrado e pela história singular da cidade. Magalhães idealizou um ritmo específico para Brasília, batizado de samba pisado. O objetivo era criar, a partir de uma brincadeira, uma tradição própria da cidade construída artificialmente.

 

A concepção do samba pisado veio acompanhada de toda uma mitologia, personagens e celebrações inéditas. Magalhães explica que buscou inovar, desenvolvendo um compasso, um pulso e uma batida característica. "A gente chama de samba pisado e, a partir daí, a gente começa a tocá-lo", relata.

 

Esse ritmo foi influenciado por sonoridades nordestinas, como o cavalo marinho e o maracatu nação, tanto de baque solto quanto de baque virado, além de elementos de outros estilos. O fundador do grupo ressalta que Brasília foi erguida em um território de encontros entre diversos povos indígenas, trazendo uma herança repleta de memórias e encantamentos. Para Magalhães, a capital é fruto de um sonho coletivo, uma cidade planejada e criada a partir de ideias e desejos.

 

Segundo ele, o grupo "Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro" absorve e também compartilha características da capital federal. Ele considera Brasília como uma pequena diáspora dentro do contexto brasileiro.

 

"Quando você junta gente de muito lugar, a cidade começa a apresentar suas próprias tradições. O Seu Estrelo carrega a junção de tanta gente. A cidade inventa a gente e a gente inventa a cidade".


 

Moda inspirada nas formas urbanas

 

A influência de Brasília ultrapassa as artes performáticas e musicais, atingindo também o universo da moda. Dois estilistas nascidos em regiões periféricas da capital, Mackenzo, de 27 anos, natural de Samambaia, e Felipe Manzoli, de 29 anos, de Planaltina, criaram peças de vestuário inspiradas diretamente nos espaços arquitetônicos da cidade.

 

Felipe iniciou seus conhecimentos em costura aos 10 anos, ensinamentos herdados da avó. Já Mackenzo, que também atuava como músico, começou a desenhar croquis marcados pela ousadia, refletindo em suas criações o que avistava das janelas dos ônibus. Ele conta que suas tias, baianas, estiveram diretamente envolvidas com a obra de Juscelino Kubitschek e participaram da construção da cidade, o que contribuiu para nutrir sua admiração pela arquitetura local.

 

Conforme Mackenzo, fazer moda exige domínio de saberes semelhantes aos da arquitetura. Ao comparar tecidos a terrenos, ele explica que o corpo funciona como a base da engenharia da peça, e vê Brasília como uma cidade de arquitetura quase mítica.

 

Ambos os estilistas consideram suas criações uma homenagem à história familiar. Quando desenvolvem coleções inspiradas em Brasília ou se baseiam nos elementos arquitetônicos para criar novas peças, Mackenzo destaca que se inspira nesse grande sonho coletivo. Ele enfatiza que a dura realidade enfrentada por quem colaborou para erguer a cidade contribui para esse sentimento.

 

Para esses criadores, os vestidos também evocam símbolos da democracia, centros de decisão política, manifestações e expressões culturais. Eles descrevem seu processo criativo como metódico e dramático, e afirmam estar sempre em busca de formas de traduzir as experiências da cidade em roupas.

 

Referências da arquitetura no vestuário

 

Nara Resende, outra estilista que atua em Brasília, é formada em arquitetura e tem 54 anos. Ela ressalta que a simplicidade das formas e a presença da geometria sempre foram determinantes em seu processo criativo. Estar hoje na capital com sua marca reforça a influência dessas referências adquiridas desde o início da carreira.

 

De acordo com Nara, Brasília é um local onde a arte está presente em todos os espaços e a natureza estabelece um contraste marcante com o estilo arquitetônico brutalista das construções. Ela relata que se sente diretamente atravessada por esse ambiente. Sua inspiração surge, especialmente, no cotidiano das ruas, com a presença das pessoas e o pulsar da vida urbana.

 

Cores e alegria retratadas em telas e roupas

 

Isabella Stephan, artista visual de 41 anos, trabalha tanto com telas quanto com estamparia. Ela revela que busca nas cores de Brasília elementos para expressar o que considera a alma da cidade. Suas obras transitam entre o abstrato e o figurativo, exaltando a alegria como tema central.

 

No início, Isabella produzia apenas quadros. Com o tempo, após vender suas pinturas, decidiu transformar as criações em peças de vestuário. Para ela, Brasília é marcada pela predominância do branco, pelo concreto presente na arquitetura e pelas linhas que compõem a cidade. Ao desenvolver suas obras, a artista optou por representar o colorido vibrante e o dinamismo que percebe no movimento e no espírito alegre dos moradores do Distrito Federal.

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