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Projetos de bioeconomia transformam áreas degradadas em produção sustentável no Pará

Iniciativas de agrofloresta e agricultura familiar impulsionam restauração ambiental e geração de renda no Pará

27/04/2026 às 19:49
Por: Redação

Em uma antiga área de pastagem localizada na zona rural de Canaã dos Carajás, no Pará, foi implantada a fazenda-laboratório São Francisco, da Belterra Agroflorestas. Nessa fazenda, a empresa realiza um trabalho de recuperação de pastos degradados utilizando o sistema agroflorestal (SAF) focado no cultivo de cacau, próximo à Floresta Nacional dos Carajás.

 

O sistema agroflorestal adotado permite a coexistência de diferentes culturas. Por exemplo, o plantio de bananeiras tem a função de criar condições de sombra apropriadas para o desenvolvimento do cacau e de outras espécies florestais.

 

Desde 2020, a Belterra recebe apoio da Vale, e, mais recentemente, também conta com suporte do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio do Fundo Clima. A empresa iniciou suas atividades como uma startup e vem se dedicando à regeneração de áreas degradadas, sempre com base em sistemas agroflorestais.

 

Esse empreendimento impacta não só a economia local, promovendo a restauração das áreas florestais, como também conecta pequenos e médios produtores ao mercado de créditos de carbono.

 

Fazenda-laboratório da Belterra Agroflorestas, no Pará. Foto: Washington Alves/Light Press

 

Iniciativas que impulsionam economia e sustentabilidade

Na região amazônica, de acordo com a plataforma Jornada Amazônia, existem atualmente 789 startups que desenvolvem atividades com impacto positivo para a floresta. Além dessas startups, há diversas cadeias produtivas relacionadas à floresta, agroecologia, bioeconomia e agricultura familiar que contribuem para gerar renda e aquecer a economia na região, especialmente no Pará.

 

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), desenvolve mais de 40 projetos voltados à bioeconomia na região amazônica. Entre os temas desses projetos estão o guaraná, o cacau, a castanha, a produção de grãos e a pecuária com balanços favoráveis de carbono, ou seja, com emissões reduzidas de gases de efeito estufa.

 

Alexandre Hoffmann, engenheiro agrônomo, pesquisador e gerente-adjunto de portfólios e programas de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da Embrapa, afirmou em entrevista que as iniciativas estão em execução e apresentam abordagens variadas. Como exemplo, citou o melhoramento genético do açaí, cultura de grande relevância para as populações amazônicas.

 

Hoffmann destacou a possibilidade de preservar a biodiversidade das florestas amazônicas ao mesmo tempo em que se viabiliza uma produção agrícola sustentável.

 

“A biodiversidade da Amazônia tem um potencial que não foi ainda explorado em sua totalidade. Mas isso não significa derrubar a floresta. Muito pelo contrário: significa manter a floresta em pé e utilizá-la de forma sustentável, não só a floresta em si, como também os recursos que lá estão”, disse ele.


 

O pesquisador reforçou ainda que a manutenção da floresta em pé é fundamental para a sobrevivência não apenas da Amazônia, mas de todo o país. Ele explicou que a preservação impacta o balanço hídrico e é essencial para a resposta às mudanças climáticas, envolvendo ciência, tecnologia e o uso sustentável dos produtos resultantes da biodiversidade.

 

Fazenda-laboratório da Belterra Agroflorestas, no Pará. Foto: Washington Alves/Light Press

 

Famílias e comunidades impulsionam agroecologia

Além dos sistemas agroflorestais, outros projetos sustentáveis são desenvolvidos na Amazônia, com o objetivo de preservar a biodiversidade, gerar renda e garantir segurança alimentar. Muitas dessas iniciativas são lideradas por agricultores familiares e comunidades tradicionais.

 

No assentamento Palmares II, área originada do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Teto (MST) e situada em Parauapebas, produtores rurais começaram recentemente o cultivo de mandioca. Com apoio do Fundo Vale, 33 integrantes da Associação dos Produtores da Vila Palmares Sul (Aprovipar) se uniram para fortalecer a agricultura familiar e o modelo agroecológico por meio do plantio coletivo de mandioca.

 

Há cerca de dois anos, esses agricultores se associaram à Cooperativa dos Produtores de Alimentos de Parauapebas (Coopa) para escoar a produção. O primeiro passo foi dado com a inauguração da Casa de Farinha da Palmares II, espaço onde a mandioca é processada por meio das etapas de descascamento, lavagem, prensagem, escaldamento e torra, resultando em diversos tipos de farinha.

 

O vice-presidente da Aprovipar, Roberto de Almeida Menezes, afirmou que apenas arrancar e vender a mandioca torna a atividade muito difícil, sendo fundamental o processamento do produto para alcançar o mercado consumidor.

 

“Só arrancar e vender a mandioca é muito difícil. É preciso beneficiar. Hoje, Parauapebas não produz nem 2% dos derivados de mandioca que consome. Vem tudo de fora. Então, nós não temos medo de colocar nosso produto no mercado”, acrescentou.


 

Para conseguir ampliar a produção, os agricultores buscaram um especialista para realizar análise e correção do solo, além de adubação apropriada. Menezes explicou que o plantio teve início no final de 2024 e que o ciclo da mandioca demanda 18 meses, o que fará com que a colheita seja realizada após esse período.

 

As famílias assentadas vêm apostando na agroecologia, um modelo produtivo que se diferencia da agricultura tradicional ao adotar práticas sustentáveis e sem o uso de agrotóxicos.

 

De acordo com o MST, a agroecologia é considerada uma alternativa para o enfrentamento das mudanças climáticas, pois emprega técnicas e manejos de baixo impacto e que evitam a degradação ambiental.

 

Patricia Daros, diretora de soluções baseadas na natureza da Vale, destacou que o MST se consolidou como um dos maiores produtores de alimentos orgânicos do país. Ela explicou que a empresa enxerga oportunidades nos territórios em que atua e ressaltou que o mercado de restauração florestal está em crescimento no Brasil. Segundo Daros, sistemas agroflorestais apresentam desafios, mas a trajetória da Belterra, que se tornou uma das maiores empresas do setor em apenas cinco anos, mostra que esses negócios são viáveis.

 

Bioeconomia avança e movimenta bilhões

Tanto as ações da Belterra quanto o projeto de cultivo e beneficiamento da mandioca, promovidos por meio da agricultura familiar e da agroecologia, representam uma das principais tendências para o setor agropecuário nas próximas décadas: a expansão da bioeconomia.

 

O conceito de bioeconomia corresponde a um modelo econômico que prioriza o uso sustentável dos recursos naturais. Além do caráter sustentável, essas iniciativas também fortalecem tradições locais e cadeias produtivas regionais.

 

Na Amazônia, a adoção desse modelo de negócios sustentável tem atraído investimentos crescentes tanto do poder público quanto do setor privado.

 

De acordo com uma estimativa conservadora da Associação Brasileira de Bioinovação (Abbi), que não leva em conta possíveis impactos de novas políticas climáticas, a bioeconomia tem potencial para movimentar até 108 bilhões de dólares no Brasil até 2050.

 

No Pará, em particular, a bioeconomia relacionada à sociobiodiversidade gera cerca de 13,5 bilhões de reais por ano, impulsionada por cadeias produtivas que envolvem florestas, rios e agricultura familiar. Esse dado consta no Relatório Técnico Preliminar: Análise da Bioeconomia da Sociobiodiversidade no Estado do Pará, elaborado pela Rede Pará de Estudos sobre Contas Regionais e Bioeconomia.

 

Desafios de integração e coordenação

Apesar do impacto econômico e das mudanças já percebidas na região amazônica, os projetos de bioeconomia ainda são incipientes no enfrentamento da crise climática. O pesquisador Pedro Abel Vieira, especialista em estudos estratégicos da Embrapa, observou que essas iniciativas, atualmente, apresentam caráter fragmentado e heterogêneo, carecendo de integração e comunicação entre si.

 

“Os projetos são positivos, mas sem foco”, diz ele, que defende uma visão mais holística ou integrada para a Amazônia. “Nós precisamos ocupar, e ocupar no sentido institucional de Estado, da presença do Estado lá. É preciso dar direções e criar institucionalidades [nessa região]”, destacou.


 

Segundo Vieira, após garantir a presença institucional do Estado, é necessário definir diretrizes para os projetos e proporcionar previsibilidade às ações.

 

O pesquisador ressaltou que o avanço da bioeconomia depende da chamada bioeconomia ampliada, processo que reúne inovação científica e conhecimento tradicional, com o objetivo de fomentar biodiversidade, desenvolvimento rural e descarbonização industrial, o que só pode ser alcançado com estratégias de coordenação efetiva.

 

Perspectivas para uma bioeconomia inclusiva

A expansão dos sistemas agroflorestais e da agroecologia, voltados para a recuperação de terras degradadas mediante produção sustentável, ocorre em um contexto global de urgência por reflorestamento, impulsionado pelas mudanças climáticas.

 

Um estudo publicado pela revista Nature em 2024 indicou que, até 2050, a Amazônia pode chegar a um “ponto de não retorno”, situação em que a floresta não conseguiria mais se manter, dando início a um processo de savanização.

 

Esse fenômeno teria consequências para plantações em todo o território nacional, já que a floresta amazônica é fundamental para o regime de chuvas do Brasil.

 

A bioeconomia surge, nesse cenário, como uma alternativa relevante para o país. O governo federal lançou, no início do mês, o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), que tem como meta transformar a biodiversidade em um dos principais ativos nacionais.

 

No lançamento, a secretária nacional de Bioeconomia do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Carina Pimenta, afirmou que o plano se trata de uma estratégia abrangente de desenvolvimento, que busca valorizar os ativos ambientais não apenas pela perspectiva da conservação, mas também aproveitá-los de maneira sustentável em atividades econômicas, criando um novo ciclo de prosperidade.

 

O pesquisador Roberto Porro, da Embrapa Amazônia Oriental, avaliou que a Estratégia Nacional de Bioeconomia apresenta uma formulação interessante, mas alertou para a necessidade de garantir o fortalecimento da sociobiodiversidade e da economia inclusiva, principalmente na Amazônia.

 

Segundo Porro, a amplitude das atividades, setores e possibilidades econômicas abarcadas pela bioeconomia traz consigo importantes desafios.

 

“Quando você trabalha com comunidades tradicionais ou com um segmento social que tem sido marginalizado há décadas, então não é adequado você trabalhar com a lógica do mercado pura e simples e com os tempos ou com o cronograma que o mercado demanda”, reforçou.


 

Ele destacou que a perspectiva de preservação das florestas deve estar acompanhada de ações que promovam justiça social.

 

De acordo com Porro, não é suficiente substituir combustíveis fósseis ou buscar maior produtividade agrícola se, para isso, forem desconsideradas questões sociais e culturais locais. Ele expressou expectativa de que possam ser consolidadas iniciativas focadas em uma bioeconomia inclusiva, capaz de contribuir positivamente para os grupos sociais envolvidos, sem prejudicá-los.

 

A reportagem foi realizada com apoio institucional.

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