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Rio de Janeiro celebra São Jorge em dia de fé, devoção e resistência

Celebrações contam com alvorada, missas e depoimentos emocionados, destacando a união de crenças e a luta contra a intolerância religiosa.

23/04/2026 às 20:35
Por: Redação

Milhares de fiéis se reuniram no centro do Rio de Janeiro nesta quarta-feira (23) para celebrar o Dia de São Jorge, um feriado estadual marcado por intensa devoção e fortes manifestações culturais e religiosas.

 

As celebrações tiveram início ainda na madrugada, com a chegada dos devotos à Avenida Presidente Vargas, nas proximidades do Campo de Santana, local tradicionalmente conhecido por concentrar uma das maiores festividades dedicadas ao santo na cidade.

 

A data é reconhecida como feriado em todo o estado do Rio de Janeiro desde o ano de 2008, e, a partir de 2019, São Jorge foi oficialmente proclamado padroeiro da capital fluminense.

 

O santo é popularmente retratado como um cavaleiro em batalha contra um dragão, simbolizando atributos como proteção, coragem e a capacidade de superar desafios e adversidades.

 

Em frente à Biblioteca Parque Estadual, um palco foi montado para acolher o público, que acompanhou a tradicional alvorada pontualmente às 5 horas da manhã. Em seguida, foi celebrada uma missa solene, conduzida pelo padre Wagner Toledo.

 

Cada um aqui tem a sua batalha. Cada coração aqui conhece um peso. Cada vida aqui já enfrentou ou está enfrentando o dragão.

 

A cantora Azula Cristina Pereira sublinhou a profunda intersecção entre as dimensões religiosa e cultural da celebração, ressaltando sua conexão com as religiões de matriz africana.

 

Venho todo ano [para a celebração de São Jorge]. Nem sempre consigo acordar para a madrugada, então estou feliz de estar aqui hoje. Para mim, que faço parte das religiosidades africanas, a gente cultua São Jorge junto com Ogum. Tudo está vinculado ao trabalho, à luta.

 

O sincretismo religioso representa uma das características mais marcantes da devoção a São Jorge no Brasil. Em manifestações afro-brasileiras como a umbanda e o candombllé, o santo é comumente associado a Ogum, um orixá guerreiro vinculado ao ferro e às batalhas. Em certas regiões, ele também pode ser relacionado a Oxóssi.

 

Essa prática histórica remonta ao período da escravidão, quando os africanos escravizados encontraram formas de preservar suas crenças ao associar seus orixás a santos católicos.

 

A pedagoga e produtora cultural Gaby Makena compartilhou detalhes sobre sua preparação para a festividade.

 

Começa no dia anterior, com oração, organização, roupa vermelha. Chegar cedo, acompanhar a missa e sair com esperança. Eu venho todo ano, no mesmo lugar, para alcançar minhas vitórias.

 

A ex-ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, também esteve presente na cerimônia da alvorada, expressando grande emoção ao recordar sua irmã, Marielle Franco.

 

Para mim, tem um significado totalmente pessoal e emocional. Eu vim com a Marielle em 2016, no ano em que ela foi eleita [vereadora] e, desde então, venho pagar a promessa que fizemos naquele dia.

 

É como se eu estivesse hoje abraçando ela de novo. São Jorge é um momento de emoção, de família, de devoção e de resistência.

 

Anielle Franco também destacou a importância de combater a intolerância religiosa.

 

A gente tem lutado muito para que a intolerância e o racismo religioso acabem. São Jorge reúne diferentes religiões com fé e devoção e mostra o que o país precisa construir.

 

Além da região central, as comemorações de São Jorge também mobilizaram milhares de devotos no bairro de Quintino, na zona norte da cidade, onde a alvorada tradicional também se configura como um ponto de grande concentração.

 

A programação festiva se estende por todo o dia, com a previsão de missas realizadas de hora em hora, garantindo um fluxo contínuo de fiéis que se dirigem aos locais de celebração para orar, cumprir promessas e participar ativamente dos ritos.

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