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Iniciativas impulsionam homens no combate ao machismo e à violência

Grupos, cursos e campanhas buscam engajar mais participantes e transformar comportamentos em prol da igualdade de gênero.

25/04/2026 às 15:08
Por: Redação

Programas, cursos, rodas de conversa e campanhas têm se dedicado a envolver um número maior de homens no enfrentamento à violência contra a mulher e na construção de uma sociedade mais igualitária. A mobilização se concentra na desconstrução do machismo e na promoção de novas masculinidades.

 

O psicólogo Flávio Urra, integrante do programa "E Agora, José?", destaca que a participação masculina no combate à violência contra a mulher ainda é "muito pequena", o que torna urgente expandir esse debate e o engajamento. Ele observa uma grande resistência dos homens em se reconhecerem como parte do problema do machismo, uma atitude ainda mais acentuada entre aqueles que são autores de violência.

 

Programas de Responsabilização

 

A Lei Maria da Penha estabelece a obrigatoriedade de agressores participarem de programas de recuperação e acompanhamento psicossocial. O programa "E Agora, José? Pelo Fim da Violência contra a Mulher" é um grupo socioeducativo que atua na responsabilização desses homens.

 

Flávio Urra explica que a resistência é maior entre os autores de violência, pois muitos "se sentem injustiçados por estarem ali obrigados a participar do grupo por uma juíza, um juiz". O curso oferecido pelo programa consiste em vinte encontros, cada um com duração de duas horas. Ao término da participação, é unânime entre os homens a percepção de uma melhora em suas vidas.

 

“Estão melhores pais, estão melhores companheiros, trazem isso no discurso que houve uma mudança ali. Se a gente for pensar que já passaram para nós cerca de 2 mil homens e se a gente conseguir, de alguma forma, afetar a vida desses 2 mil homens e das mulheres que convivem com eles, possivelmente está havendo uma mudança na sociedade.”

 

Comportamentos no Ambiente Corporativo

 

Com sete anos de experiência como facilitador de grupos de homens, o consultor de empresas Felipe Requião identificou padrões de comportamento recorrentes. Entre eles, a desresponsabilização individual, expressa em frases como "eu não faço esse tipo de coisa, não sou eu" e "tem coisa muito pior que acontece", além da invisibilização do impacto e, em alguns casos, a vitimização e o deslocamento do foco. Requião afirma que esses comportamentos derivam de um aprendizado cultural, o que evidencia a importância das rodas de conversa para promover mudanças.

 

A resistência masculina em participar dessas discussões também é notada no mundo corporativo. "Tem uma [resistência] que é muito recorrente que é a sensação de perda de espaço. 'Poxa, agora vão tirar espaço dos homens'. Ou 'agora eu não posso mais, não serei considerado para determinadas posições, promoções', etc.", relata Requião.

 

O consultor enfatiza a necessidade do envolvimento das lideranças na defesa das pautas de diversidade, equidade, inclusão e pertencimento. Ele argumenta que o processo deve ser uma "jornada contínua", não se limitando a uma única palestra, aula ou roda de conversa. Segundo Requião, os homens começam a se envolver de fato com o problema após três ou quatro encontros reflexivos. Ele ainda cita estudos que demonstram que ambientes de trabalho com maior igualdade entre homens e mulheres resultam em melhoria do clima organizacional.

 

“Uma mudança real acontece quando a gente, homem, percebe que não está perdendo. Está se libertando de um modelo que nos restringe, que nos limita, que nos cerceia e que a gente pode fazer diferença performando uma masculinidade de um outro lugar.“

 

Um exemplo de liderança que se engajou é o engenheiro Carlos Augusto Souza Carvalho, de 55 anos. Após participar de um grupo de homens, ele estendeu a experiência aos funcionários de sua empresa de engenharia. "Ponho palestra para eles sobre masculinidade, e o que sai dessas reuniões é impressionante, é realmente enriquecedor, a gente vê o quanto todos os homens, independentemente de classe social, condição financeira, posição no mundo, de opção sexual, têm para falar.”

 

Espaços Digitais e Comunidade

 

Desde 2017, o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral oferece um espaço terapêutico online e gratuito na internet. Ele observa que a melhoria já se inicia quando os homens percebem que podem compartilhar suas dores ou simplesmente acompanhar conversas sobre machismo e masculinidades.

 

Como terapeuta familiar, Amaral defende que pais conversem sobre o tema com outros pais, utilizando grupos de mensagens escolares para trocar experiências sobre como abordar a questão quando os filhos estão envolvidos. Ele ressalta a importância de "construir parâmetros comuns que vão para além da família, escutar a escola, perceber na escola um lugar possível para construir também essas pontes". Para ele, a formação de comunidades é crucial, representando "esse meio do caminho entre a família e as políticas públicas e a lei".

 

Ações de Mobilização

 

O movimento global Laço Branco designou o dia 6 de dezembro como o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres no Brasil. A campanha realiza ações ao longo de todo o ano, incluindo o projeto "Homens de Honra", que visa formar multiplicadores.

 

Patricia Zapponi, fundadora e diretora do Instituto Laço Branco Brasil, afirma que a presença de homens para falar sobre o combate ao machismo em ambientes como clubes, escolas e templos gera um impacto significativo. "Quando você leva o homem, seja para um canteiro de obra, seja para uma escola, você muda o olhar. Então é um desafio, porque o homem, na grande maioria [dos casos], ele é o agente da violência, mas ele passa a ser o agente do enfrentamento. Então ele tem mais voz para falar com o próprio ofensor.”

 

Zapponi destaca o grande engajamento masculino nos projetos da campanha, mencionando que o número de voluntários homens é "quase o dobro do número de voluntárias mulheres". Ela ressalta que todos os voluntários passam por uma "severa inspeção no CPF" para garantir que não haja ofensores se aproximando da causa. Outras iniciativas da campanha Laço Branco incluem o "Orange Day" e a criação de núcleos integrados de Acolhimento à Mulher, onde advogados oferecem serviços a vítimas de violência.

 

Educação e Prevenção nas Escolas

 

Há uma década, o programa "Maria da Penha Vai à Escola" é promovido pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) com o objetivo de prevenir e coibir a violência contra a mulher. A iniciativa conta com a parceria do TJDFT, do Ministério Público do Distrito Federal e da Secretaria de Estado de Educação do DF, entre outros órgãos. Recentemente, a ação foi integrada ao Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, que envolve os Três Poderes.

 

A psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello observa a existência de "boas práticas" construtivas em todo o país para promover a reflexão sobre o tema, enfatizando que "a gente não precisa inventar a roda, a gente precisa trocar esse conhecimento e afinar cada vez mais essas práticas". Ela sublinha o papel transformador da escola na comunidade e sugere outras iniciativas que envolvam pais, como a promoção de palestras informativas e impactantes em reuniões escolares, com a participação de profissionais de diversas áreas para discutir temas como violência sexual contra crianças e adolescentes e violência doméstica.

 

O orientador familiar Peu Fonseca defende a inclusão de homens e mulheres em rodas plurais para repensar o machismo. Ele nota que, em comunidades escolares, homens formam seus próprios grupos para conversar sobre parentalidade e seu papel no cuidado. No entanto, ele argumenta que "a gente precisa convidar os homens e os pais para ambientes integrados, inclusive não apenas entre homens, mas também com mulheres”.

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