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Ceramistas de Maruanum apresentam obras inéditas em exposição no Rio

Peças produzidas por artesãos quilombolas do Amapá são expostas pela primeira vez fora do estado, destacando técnicas tradicionais e saberes ancestrais.

27/04/2026 às 22:01
Por: Redação

O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP) em parceria com a Associação de Amigos do Museu de Folclore Edison Carneiro promove, a partir do dia 30, às 17h, a exposição "Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum". O evento marca a estreia das cerâmicas do distrito rural de Maruanum, no Amapá, em uma mostra exclusiva fora do estado, destacando peças produzidas com matéria orgânica extraída do solo amazônico e que mesclam técnicas indígenas a saberes de matriz africana.

 

Pela primeira vez, o público do Rio de Janeiro terá acesso a uma seleção de peças confeccionadas com barro local, cinzas provenientes da queima da casca da árvore caripé ou caraipé (Licania scabra) e resina vegetal jutaicica, obtida do jatobá (Hymenea courbaril). A exposição reúne 208 obras assinadas por 18 artesãos de Maruanum, dos quais 16 são adultos e dois são crianças.

 

O CNFCP está vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e é sediado na cidade do Rio de Janeiro. A pesquisa de campo que resultou na mostra foi conduzida em outubro de 2025 por Ana Carolina Nascimento, coordenadora técnica de Pesquisa e Projetos Especiais do CNFCP/Iphan, acompanhada do fotógrafo Francisco Moreira da Costa.

 

Segundo Ana Carolina, o desejo de realizar esta exposição vem de mais de 15 anos, mas a escassez e a sazonalidade da matéria-prima usada pelas ceramistas, além de restrições orçamentárias, postergaram a concretização do projeto.

 

“A louça do Maruanum depende de uma matéria-prima que é de difícil obtenção. Então, por conta da sazonalidade da produção, da obtenção dessa matéria-prima, e também de questões orçamentárias da instituição, a gente demorou a concretizar esse desejo. Mas estamos muito felizes por realizar essa exposição agora”, disse.

 

O ofício das louceiras compreende práticas tradicionais acerca da biodiversidade amazônica, principalmente na obtenção e preparo dos materiais essenciais. Para a produção, é necessário extrair o barro, que exige cuidados específicos, assim como a queima, que utiliza as cinzas da casca do caripé. Outro elemento indispensável é a jutaicica, resina retirada do jatobá.

 

Durante o processo, as artesãs seguem uma série de protocolos e restrições, especialmente relacionados à extração do barro e ao momento da queima. O ritual mais significativo ocorre logo após a retirada do barro, quando as ceramistas modelam pequenas peças e as depositam no buraco de onde o material foi extraído, como forma de ofertar à chamada mãe ou vovó do barro.

 

“Agradecem, pedem proteção para a queima e cantam ladrões (versos) de marabaixo”.

 

Tradição e reconhecimento cultural

 

Atualmente, a tradição da cerâmica de barro em Maruanum é mantida por 26 pessoas, entre elas 20 mulheres, dois homens, duas meninas e dois meninos. Esses artesãos vivem em 16 vilas do distrito rural quilombola de Maruanum, localizado a 80 quilômetros da capital Macapá.

 

O arqueólogo Michel Bueno Flores da Silva, superintendente do Iphan no Amapá, considera que o ofício tradicional das louceiras de Maruanum pode ser reconhecido oficialmente, o que seria o primeiro passo para a solicitação de registro como Patrimônio Imaterial do Iphan.

 

“A solicitação de registro do ofício das Louceiras do Maruanum, protagonizada pela comunidade junto ao Iphan, não apenas assegura a salvaguarda desse saber, mas também reposiciona o Amapá no cenário nacional, evidenciando sua centralidade na produção cultural brasileira e garantindo, além da visibilidade, instrumentos concretos de proteção”, destacou Michel Flores da Silva.

 

Entre as medidas consideradas fundamentais por Michel estão a proteção dos locais de extração dos materiais, a garantia da transmissão dos conhecimentos entre gerações e a valorização econômica da atividade em harmonia com seus valores espirituais e culturais.

 

A antropóloga Ana Carolina Nascimento pontua que a presença de dois meninos entre os ceramistas, que têm orgulho de sua atividade, pode incentivar outros jovens e colegas a aprenderem o ofício, promovendo a renovação dessa tradição.

 

O Instituto Federal do Amapá (Ifap) desenvolve projetos de educação patrimonial na comunidade, ofertando oficinas para o ensino da cerâmica tradicional.

 

“Quem sabe outras crianças comecem também a fazer?”, sugeriu a antropóloga.

 

Encontro com guardiã da tradição

 

Na inauguração da exposição, está prevista uma roda de conversa às 15h com a presença de Marciana Dias, mestra ceramista de 85 anos que é reconhecida como a guardiã desse saber no país e a mais antiga louceira ativa de Maruanum. Também participarão do encontro a ceramista Castorina Silva e Silva, a pesquisadora Céllia Costa e o reitor Romaro Silva, ambos do Ifap.

 

Marciana Dias é referência não apenas na produção da cerâmica, mas também como mestra em marabaixo, tradicional manifestação de dança e canto do Amapá. Ela fundou a Associação de Louceiras em 1992.

 

Desde 2011, a pesquisadora Céllia Costa acompanha e desenvolve projetos voltados à preservação da cerâmica de Maruanum, atuando junto às artesãs. Em 2016, ela iniciou uma análise voltada a estratégias pedagógicas para a transmissão desse saber durante seu doutorado na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). A partir de 2020, ela passou a liderar o grupo de pesquisa Centro sobre Cerâmica do Maruanum, Mulherismo, Decolonialidade, Relações Étnico-Raciais (Cemadere), que possibilita ações de educação patrimonial e implementação de políticas públicas para a comunidade.

 

A mostra compõe a 216ª edição do programa Sala do Artista Popular, criado em 1983 pelo CNFCP, e as peças expostas poderão ser adquiridas no Ponto de Comercialização Permanente do centro.

 

A exposição estará aberta ao público até 1º de julho, com previsão de itinerância para Macapá e Maruanum após o encerramento no Rio de Janeiro. A visitação é gratuita e ocorre de terça a sexta-feira, das 10h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h. O CNFCP e o Museu de Folclore Edison Carneiro situam-se na Rua do Catete, 179, bairro do Catete, zona sul do Rio de Janeiro.

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