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Pesquisa revela aumento no risco de Guillain-Barré após dengue

Estudo mostra que infectados por dengue têm mais chance de desenvolver complicação neurológica rara

16/04/2026 às 23:52
Por: Redação

Pessoas que contraíram dengue apresentam probabilidade significativamente maior de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas seis semanas posteriores à infecção. De acordo com estudo de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz) e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, divulgado pela revista científica New England of Medicine, o risco é 17 vezes maior nesse período, chegando a 30 vezes nas duas primeiras semanas após o início dos sintomas da dengue.

 

Os dados levantados mostram que, considerando uma base de 1 milhão de casos de dengue, 36 pessoas podem manifestar SGB, o que, embora represente um número absoluto relativamente pequeno, torna-se relevante diante do cenário de epidemias frequentes no Brasil, segundo os responsáveis pela pesquisa.

 

A Síndrome de Guillain-Barré é uma doença neurológica rara e potencialmente grave, caracterizada por uma resposta autoimune em que o sistema imunológico ataca os nervos periféricos, os quais conectam o cérebro e a medula espinhal ao restante do corpo.

 

O estudo aponta que, em todo o mundo, a dengue está se propagando em ritmo mais acelerado do que qualquer outra enfermidade transmitida por mosquitos, com 14 milhões de infecções registradas em 2024.

 

Os pesquisadores da Fiocruz Bahia utilizaram três grandes bancos de dados do Sistema Único de Saúde (SUS): registros de internações hospitalares, notificações de casos de dengue e dados de mortalidade.

 

A análise identificou mais de 5 mil internações por SGB entre 2023 e 2024, sendo que 89 dessas hospitalizações ocorreram logo após o paciente apresentar sintomas de dengue.

 

Os especialistas alertam para a necessidade de que gestores de saúde pública passem a considerar a SGB como uma possível complicação pós-dengue nos protocolos de vigilância epidemiológica.

 

“Durante surtos de dengue, sistemas de saúde devem ser preparados para identificar precocemente casos de fraqueza muscular e dispor de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa de SGB devem ser acionadas nas semanas seguintes ao pico de casos de dengue”, alertam os pesquisadores.


 

Segundo a Fiocruz, a pesquisa também contribui para que médicos, enfermeiros e neurologistas possam suspeitar de SGB em pacientes que tenham tido dengue nas seis semanas anteriores e que apresentem sintomas como fraqueza nas pernas ou sensação de formigamento.

 

Os autores ressaltam que a rapidez no diagnóstico é essencial, pois os tratamentos disponíveis, como imunoglobulina e plasmaférese, apresentam melhores resultados quando administrados logo no início dos sintomas.

 

“Também é importante incentivar a notificação dos casos de SGB pós-dengue ou informar a vigilância epidemiológica municipal/estadual sobre a ocorrência de doença neuro-invasiva por arbovírus”, defendem.


 

Atualmente, não existe um tratamento antiviral específico para a dengue. O manejo da doença se baseia em hidratação adequada e suporte clínico. Por essa razão, a pesquisa enfatiza a importância da prevenção, destacando ações como o combate ao mosquito Aedes aegypti e a vacinação como medidas mais eficazes para conter a propagação do vírus e, consequentemente, complicações graves como a SGB.

 

A vacinação contra a dengue pode resultar em uma expressiva redução no número de casos e, por consequência, diminuir o total absoluto de pessoas que podem desenvolver complicações graves, como a Síndrome de Guillain-Barré.

 

“Enquanto não tivermos um tratamento antiviral eficaz contra a dengue, a prevenção continua sendo a melhor estratégia. Nosso estudo reforça que evitar a infecção evita também complicações como esse tipo de paralisia potencialmente grave”, afirmam os autores.


 

Complicações neurológicas decorrentes de arboviroses

 

A avaliação da Fiocruz destaca que o país enfrenta epidemias recorrentes de dengue, tendo ultrapassado a marca de 6 milhões de casos prováveis em 2024. Isso faz com que, ainda que a SGB seja considerada rara, o número absoluto de pessoas afetadas após episódios de dengue seja significativo, representando um desafio de preparação para a rede de saúde.

 

O levantamento também demonstra que a associação entre arboviroses — doenças transmitidas por mosquitos — e problemas neurológicos graves já havia sido identificada durante a epidemia de Zika, nos anos de 2015 e 2016. Naquele contexto, o vírus da Zika foi relacionado tanto à microcefalia em recém-nascidos quanto ao aumento expressivo de casos de SGB em adultos. A dengue pertence à mesma família viral do Zika.

 

A Síndrome de Guillain-Barré caracteriza-se por provocar fraqueza muscular, geralmente iniciada nos membros inferiores e podendo se estender aos braços, ao rosto e, em situações mais severas, comprometer a respiração. Nestes casos mais graves, o paciente pode chegar à total paralisia e necessitar do auxílio de aparelhos para respirar.

 

Na maior parte dos casos, a recuperação é possível, ainda que o processo possa se estender por meses ou até anos, sendo que alguns pacientes podem apresentar sequelas permanentes.

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