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Jornalismo: Ensino prioriza ética e crítica frente à IA e desinformação

Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo debate desafios e a necessidade de reafirmar o papel humano da profissão.

23/04/2026 às 12:44
Por: Redação

A formação em jornalismo precisa se fortalecer em pilares de crítica e ética para enfrentar os avanços da inteligência artificial (IA) e o crescimento da desinformação. Esta é a avaliação da professora Marluce Zacariotti, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), que preside a Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej).

 

Para a especialista, a manutenção da confiança social exige que esses fundamentos sejam inabaláveis nos tempos atuais. A professora Marluce participa do 25º Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo (ENEJor), que ocorre na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), em Brasília, com programação estendida até o dia 24 de abril.

 

Integração Transversal de Temas

 

A pesquisadora aponta que tanto a educação quanto a prática jornalística atravessam um período que exige profunda reflexão e novas abordagens. A solução, segundo ela, não reside apenas em aprimoramentos técnicos ou na criação de novas disciplinas sobre inteligência artificial ou combate à desinformação.

 

Em vez disso, Marluce Zacariotti defende que esses temas devem ser incorporados de maneira transversal em todas as matérias do currículo. Ela enfatiza a necessidade de um novo olhar para a pedagogia do jornalismo, visando a consolidação da essência da atividade profissional.

 

É preciso olhar para a pedagogia do jornalismo com o objetivo de reafirmar o papel clássico da atividade.

 

A formação não pode negligenciar o estudo da pesquisa jornalística e das metodologias de checagem de dados. Embora as tecnologias possam otimizar essas tarefas, é crucial valorizar e fortalecer a dimensão humana da produção jornalística. A extensão universitária, que permite uma visão além do ambiente acadêmico, desempenha um papel fundamental nesse processo, envolvendo públicos e estabelecendo parcerias para enriquecer o aprendizado.

 

O jornalismo é um curso, por natureza, extensionista.

 

Durante o evento em Brasília, a professora ressaltou a importância de as faculdades de jornalismo firmarem colaborações para reforçar o impacto da extensão no ensino. As instituições de ensino superior podem contribuir para a pedagogia, auxiliando na compreensão do cenário atual, que inclui diversos contextos econômicos e políticos.

 

É preciso entender que a gente vive nesse novo universo. Fechar as portas para isso é estar distante também dos nossos alunos.

 

A formação deve, portanto, incorporar um viés social intrínseco. Dentro dessa perspectiva humanística esperada de estudantes e profissionais, as tecnologias não devem ser vistas como vilãs. Marluce Zacariotti argumenta que os pesquisadores não devem adotar uma postura apocalíptica diante das inovações.

 

É preciso olhar e entender que são ferramentas que a gente precisa saber usar da melhor maneira possível. É não negar, mas aproveitar o potencial que elas podem ter para nos ajudar.

 

A presidente da Abej também observa que muitos alunos ainda não compreendem como utilizar essas ferramentas de forma eficaz. Por isso, o diálogo constante com os estudantes é essencial para encontrar soluções e orientações adequadas.

 

Consciência Cidadã e Alfabetização Midiática

 

É fundamental que os futuros jornalistas desenvolvam uma forte consciência cidadã. Este caminho é indispensável para fortalecer a credibilidade da profissão perante a sociedade. Investir em educação midiática, ou literacia midiática, é crucial para explicar ao público como funciona o ecossistema da mídia.

 

Nesse contexto, torna-se imprescindível que a população saiba diferenciar o trabalho dos jornalistas do conteúdo produzido por influenciadores. A professora destaca que, em muitas situações, as pessoas não conseguem identificar quando uma informação é fruto de um trabalho jornalístico profissional, que inclui diferentes perspectivas, abordagens e contextualização do tema.

 

Reconfiguração do Ecossistema de Mídia

 

Os educadores devem considerar que, em meio à crescente desinformação, o panorama midiático está passando por uma completa reestruturação. Segundo Marluce Zacariotti, especialistas hoje entendem que as grandes corporações de mídia não são mais os veículos tradicionais, mas sim as big techs, as gigantes da tecnologia.

 

Se antes a gente falava de impérios midiáticos, agora lidamos com forças um pouco mais ocultas porque a gente está lidando com algoritmos.

 

A professora explica que o sistema midiático atual é caracterizado pela geração de dados por cada indivíduo. Esse ambiente “digitalizado e plataformizado” exige que a crítica e a ética sejam priorizadas em relação à técnica. Por isso, a formação jornalística deve preparar os profissionais para enfrentar esses desafios com responsabilidade, buscando um diferencial.

 

Não reproduzindo, mas produzindo com essas possibilidades tecnológicas.

 

Valor da Interação Presencial

 

A pesquisadora enfatiza que a educação na área de jornalismo deveria dar prioridade a aspectos presenciais. O jornalismo é uma atividade de natureza coletiva, que depende intensamente da troca de ideias e experiências, tornando muito complexo imaginá-lo sendo realizado integralmente de forma online.

 

Analogamente, no ambiente profissional, as redações que permitem a colaboração presencial oferecem debates mais ricos do que o trabalho à distância. Essa dinâmica, inclusive, impacta o perfil do próprio jornalista, que, cada vez mais, atua da redação e menos na rua, uma tendência que também se relaciona com a precarização das condições de trabalho.

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