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Projeto monitora costões rochosos e orienta manejo sustentável no litoral do RJ

Monitoramento em Arraial do Cabo identifica espécies e orienta pesca e turismo baseados em evidências científicas

21/04/2026 às 15:10
Por: Redação

Em Arraial do Cabo, uma das áreas de mergulho mais bem preservadas do país, mergulhadores pesquisadores realizam censos subaquáticos detalhados, identificando e contabilizando espécies de peixes no fundo do mar cristalino. A atividade, conhecida como censo marinho, ocorre a profundidades entre sete e oito metros, utilizando instrumentos para delimitar trechos de 20 metros e anotar a presença de diferentes espécies, enquanto tartarugas marinhas frequentemente acompanham o trabalho.

 

Durante o monitoramento, os especialistas contam com instrumentos específicos para registrar a coloração dos corais, um importante indicativo da saúde desses organismos. O conhecimento aprofundado dos cientistas permite identificar rapidamente as espécies, muitas vezes sem recorrer a catálogos. O censo, realizado semestralmente em Arraial do Cabo, Cabo Frio e Búzios, no estado do Rio de Janeiro, é conduzido anualmente em Angra dos Reis, mais ao sul.

 

A iniciativa integra o Projeto Costão Rochoso, mantido pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, uma ONG que atua em parceria com a Petrobras. O projeto monitora continuamente o ecossistema dos costões rochosos, ambientes de transição entre o mar e o continente, compostos por paredões e grandes blocos rochosos, muitos dos quais ficam submersos. Locais como a Pedra do Arpoador e o morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, exemplificam esses ambientes, onde a vegetação cobre as porções acima do nível do mar.

 

Esses costões, presentes principalmente de parte do litoral do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo, e em fragmentos no Nordeste, abrigam uma grande variedade de organismos. Eles funcionam como áreas de alimentação e abrigo para diferentes formas de vida, incluindo aves, espécies marinhas e seres das entremarés, como cracas, mexilhões, algas e caranguejos, que alternam entre períodos submersos e expostos conforme a maré.

 

O Projeto Costão Rochoso teve início em 2017 por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), com foco inicial na Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo, conhecida por sua elevada biodiversidade. A bióloga marinha Juliana Fonseca, cofundadora do projeto, atribui essa riqueza ao posicionamento geográfico da cidade, situada em um ponto de divisão entre águas frias do sul e águas quentes do nordeste do Atlântico.

 

“A gente tem pelo menos 200 espécies de peixes. Todas as cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil passam aqui um tempo. Além disso, a gente tem diversas espécies de aves, de algas, uma infinidade”, descreve ela.


 

Na região, é possível encontrar espécies presentes até no Caribe. Segundo o biólogo e mergulhador Marcos de Lucena, o mar de Arraial do Cabo apresenta diversidade superior à do litoral nordestino, incluindo Fernando de Noronha.

 

Muitos peixes jovens se concentram próximos às rochas dos costões, que funcionam como berçários naturais. O censo realizado na Pedra Vermelha, área restrita a pesquisas científicas mediante licença do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), identificou, além de peixes, corais, lulas e polvos.

 

Moysés Cavichioli Barbosa, coordenador do projeto, afirma que foram encontradas várias espécies ameaçadas, como garoupas, meros, badejos, budiões, raias e tartarugas. Segundo ele, pelo menos 15 espécies monitoradas estão em algum nível de risco, incluindo algumas endêmicas do Brasil.

 

Informações científicas orientam decisões sobre pesca e turismo

O projeto mantém diálogo constante com o ICMBio e outros órgãos gestores, fornecendo dados científicos para embasar as decisões sobre atividades como turismo e pesca. Barbosa exemplifica que, para algumas espécies, o ideal seria impor uma moratória, proibindo a pesca por até dois anos, como no caso do budião, cuja reprodução pode ser comprometida pela captura dos maiores exemplares, que são os únicos machos após reversão sexual.

 

“Tem algumas espécies que o ideal mesmo é ter uma moratória, por exemplo, não pode pescar por dois anos”, exemplifica o biólogo em relação ao budião.


 

“Depois de um tempo, um deles faz a reversão sexual e vira macho. Normalmente o maior. E aí vem o pescador e puf! Mata o maior que tem. Então, naquele ano, aquela reprodução já ficou comprometida”, conta.


 

As orientações baseadas em evidências científicas abrangem também limites para o turismo náutico, controle de ruído de motores de embarcações e distâncias seguras para a aproximação de mergulhadores a tartarugas marinhas. Uma pesquisa específica busca determinar até que ponto um turista pode se aproximar das tartarugas sem assustá-las.

 

Estudo dos impactos das mudanças climáticas

O monitoramento realizado pelo projeto inclui também organismos que vivem nas entremarés, onde o nível do mar varia. Um dos focos é analisar como algas e mexilhões reagem a elevações extremas de temperatura, cada vez mais comuns devido às mudanças climáticas. Isis Viana, bióloga marinha que acompanha o trabalho, relata que oscilações térmicas mais intensas têm afetado profundamente esses organismos, que muitas vezes não resistem aos extremos.

 

“Tem dias que a temperatura sobe muito, tem dias que baixa muito. Isso afeta essas formas de vida e podem não resistir ao calor”, diz.


 

“A gente chama esses momentos de extremos de calor. São anormais e acontecem com mais frequência por causa das mudanças climáticas, não tem organismos que sobrevivam”, ressalta ela, que conta com sensores nas rochas e boias oceanográficas, ambos captam a temperatura 24 horas por dia.


 

Outro objetivo é determinar com precisão qual a proporção do litoral brasileiro formada pelo ecossistema dos costões rochosos.

 

Gestão sustentável de reservas extrativistas

Nas reservas extrativistas, a legislação impõe a utilização sustentável dos recursos naturais, assegurando meios de subsistência das comunidades tradicionais, como os pescadores, que têm permissão para atuar nessas áreas, assim como o turismo é autorizado. Apenas a pesca industrial é proibida.

 

O agente de gestão socioambiental do ICMBio, Weslley Almeida, ressalta que a administração da reserva depende de dados científicos, razão pela qual a parceria com o Projeto Costão Rochoso é fundamental para embasar decisões e garantir a sustentabilidade dos recursos naturais para as futuras gerações de pescadores artesanais.

 

O pescador José Antônio Freitas Batista, que atua na região há 49 anos, afirma que a preservação é fundamental não só para a continuidade da pesca, mas também para o turismo, que se tornou uma fonte complementar de renda. Ele destaca o impacto positivo da atividade pesqueira na economia local, gerando empregos em áreas como produção de gelo, manutenção de embarcações, fabricação de redes e comércio, movimentando toda uma cadeia produtiva.

 

Engajamento comunitário e educação ambiental

A parceria promove ainda ações de sensibilização e capacitação junto à comunidade local, incluindo encontros em escolas e treinamentos para pescadores e seus familiares. O cientista do mar Yago Ferreira argumenta que o contato direto com a sociedade é fundamental para a compreensão e valorização do ambiente marinho.

 

“A gente não consegue conhecer o que não entende e não entende o que está longe”, declara o pesquisador, defendendo a aproximação entre ciência e sociedade para a construção de uma mentalidade oceânica mais harmoniosa.


 

Moysés Barbosa considera que envolver a sociedade na conservação ambiental é mais eficaz do que a divulgação exclusiva em artigos acadêmicos ou relatórios restritos a gestores públicos.

 

“Isso é muito mais eficaz do que qualquer conhecimento acadêmico que sai apenas em artigo ou que vai apenas lá para Brasília, para um gestor. Trabalhar com a sociedade é muito mais eficiente”, justifica o coordenador.


 

A prefeitura de Arraial do Cabo informou que está realizando estudos técnicos para definir o limite de visitantes nas praias e demais pontos turísticos locais, com o objetivo de evitar a sobrecarga ambiental e proporcionar melhor experiência aos turistas. A administração municipal destacou ainda a parceria com o ICMBio para fiscalização e implementação de políticas públicas na reserva marinha.

 

Investimento e continuidade da parceria

A parceria entre o Projeto Costão Rochoso e a Petrobras foi iniciada em 2023 e renovada em 2026 por mais quatro anos, com investimento de seis milhões de reais. A cada ciclo, os resultados são avaliados para a decisão sobre a continuidade do apoio financeiro, que integra o programa socioambiental voluntário da empresa.

 

A gerente de projetos de responsabilidade social da Petrobras, Ana Marcela Bergamasco, destaca que as parcerias fomentadas pela companhia devem integrar interesses ambientais e sociais, promovendo sustentabilidade na pesca e turismo comunitário, afastando a ideia de conflito entre conservação ambiental e desenvolvimento econômico.

 

“Tem que trabalhar com a questão social, turismo de base comunitária, com a comunidade e a pesca, mas de uma maneira sustentável, tirando uma visão de que a conservação estaria competindo com alguma atividade econômica”, diz.


 

“Na verdade, para a população, elas podem andar juntas e uma contribuir com a outra”, completa Ana Marcela.


 

O projeto segue realizando pesquisas e ações que visam aprofundar o conhecimento sobre os costões rochosos brasileiros, orientando a gestão ambiental e promovendo a integração entre ciência, sociedade e setores produtivos.

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