A deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal, em novembro de 2025, trouxe à tona esquemas de fraude financeira envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, gerando impactos profundos na rotina dos quase cinco mil funcionários do BRB e abalos na confiança da principal instituição financeira pública do Distrito Federal.
De acordo com Daniel Oliveira, diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal e funcionário do BRB desde 2008, a decisão política de apoiar a instituição privada Master fez com que todos, tanto trabalhadores quanto a sociedade, passassem a arcar com as consequências. O sindicato tem registrado o agravamento do estresse entre os empregados, principalmente entre aqueles que precisaram prestar depoimento à Polícia Federal e a auditores sobre as negociações entre BRB e Master. Os mais afetados são analistas de áreas envolvidas diretamente nas tratativas com o banco do empresário Daniel Vorcaro, detido desde o início de março.
Oliveira relata que as negociações que resultaram na compra de bilhões de reais em créditos do Banco Master pelo BRB e levaram à tentativa frustrada de aquisição de 58% do capital do Master por dois bilhões de reais, estão no foco das investigações. O Banco Central rejeitou a operação dois meses antes de determinar a liquidação extrajudicial do Master e da deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal.
O ambiente nos postos de trabalho do BRB, segundo relatos recebidos pelo sindicato, tornou-se mais tenso e marcado por uma crise institucional sem precedentes desde a fundação do banco em 1964. Desde o afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, por ordem judicial, clientes passaram a procurar as agências questionando a solidez da instituição e os riscos para seus investimentos. Muitos demonstraram interesse em retirar seus recursos, cabendo aos funcionários convencer esses clientes a manter aplicações e confiar no banco.
Oliveira destaca que, além de não disporem de respostas para todas as dúvidas dos clientes, os próprios trabalhadores sentem-se inseguros diante das incertezas e do risco para seus empregos. Ele avalia que a exposição pública da crise aumentou a cobrança sobre os bancários para que expliquem fatos que fogem ao controle da categoria.
"Nossos empregos também estão em jogo. Somos cobrados a dar satisfações sobre fatos que escapam da nossa alçada. Quem atende ao público tem que estar o tempo todo atento ao noticiário para poder transmitir informações que, a nosso ver, são de responsabilidade do banco e do GDF", ponderou Oliveira.
O sentimento entre os empregados, aponta ele, oscila entre indignação e apatia. Segundo Oliveira, houve funcionários que, antes mesmo da Polícia Federal iniciar as investigações, já alertavam para indícios de irregularidades nas transações com o Master. O sindicato comunicou oficialmente ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários, em novembro de 2024, sobre a primeira compra de carteira de créditos do Master, por considerá-la prejudicial ao BRB.
A instabilidade também atinge aproximadamente três mil aposentados do BRB, que dependem da saúde financeira do banco para seus planos de saúde e previdência complementar. A entidade de previdência do BRB afirma possuir mais de quatro bilhões e trezentos e noventa milhões de reais em patrimônio segregado dos recursos dos patrocinadores e empresas do conglomerado BRB, com gestão autônoma e independente.
O BRB, com seis décadas de trajetória, administra mais de oitenta bilhões de reais em ativos de mais de dez milhões de clientes e garante ter capacidade de absorver perdas pontuais com recursos de curto prazo. Para Oliveira, o maior risco reside nas incertezas e na demora em encontrar uma solução, fatores que podem afastar investidores e ameaçar o patrimônio da instituição. Ele critica a ausência de informações claras, que inclusive motivou a agência de classificação Moody’s a reduzir a nota do BRB, considerando a falta de transparência sobre o impacto da compra dos ativos do Master e a ausência de um plano de recuperação definido. A Moody’s avalia que o banco precisará de um reforço de capital significativo para cumprir seus compromissos.
No posicionamento institucional, o BRB tem se comunicado por meio de avisos obrigatórios aos acionistas, comunicados ao mercado e fatos relevantes, orientando dirigentes e funcionários a não conceder entrevistas sobre o caso. Paralelamente, o banco veicula campanhas digitais afirmando ser uma instituição sólida e estável, em pleno funcionamento.
No entanto, a ausência do novo presidente do BRB, Nelson de Souza, à Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Distrito Federal, foi alvo de críticas. Ele justificou que não poderia se manifestar publicamente antes do término das auditorias internas e da análise do balanço contábil consolidado de 2025 pelos acionistas. A comissão, por sua vez, decidiu convocar Souza para depor obrigatoriamente em data ainda indefinida, argumentando que o cidadão do Distrito Federal tem direito de acessar informações transparentes sobre a situação do banco.
Na avaliação de Daniel Oliveira, a cobertura negativa da imprensa reforça um discurso favorável à privatização do banco, o que pode resultar na venda de ativos do BRB a grandes instituições financeiras por valores abaixo do mercado. Ele alerta que tal cenário poderia levar, inclusive, à transferência gratuita de contas de governos e empresas, atualmente sob gestão do BRB, para outros bancos.
Com a crise instalada, projetos estratégicos como a expansão para outros estados foram interrompidos. Funcionários que pretendiam transferência para novas unidades e os cerca de quatrocentos aprovados no concurso de 2022 tiveram suas expectativas frustradas, pois a convocação depende agora da resolução do impasse.
A ampliação da atuação do BRB em outras regiões era uma das prioridades da gestão de Paulo Henrique Costa, que buscava conquistar a gestão da folha de pagamento de servidores em cidades como João Pessoa e abrir agências nos estados da Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, além de estabelecer correspondentes bancários em outros estados. O investimento em marketing, com patrocínio de eventos esportivos e a parceria com o Flamengo para criar o banco digital Nação BRB Fla, também marcou essa fase, alcançando quase quatro milhões de clientes. Entretanto, o avanço foi freado antes mesmo do anúncio da intenção de compra do Master em março de 2025, sendo interrompido por tempo indefinido após a operação policial de novembro.
Recentemente, a governadora Celina Leão, no cargo desde a saída de Ibaneis Rocha para concorrer ao Senado, declarou que a diretoria do BRB analisa a possibilidade de fechar agências em outros estados. Ela afirmou que a decisão caberá à direção do banco, mas independentemente da medida, ressaltou que a instituição retomará sua missão de ser um banco regional focado no Distrito Federal, priorizando o crédito na região.
A governadora já garantiu que o BRB não irá quebrar e disse que o banco tem condições de cumprir os acordos firmados com o Banco Central. Após reunião com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, em São Paulo, ela assegurou que uma solução para a crise será apresentada e implementada em até trinta dias, prazo considerado insuficiente por Oliveira.
"Quem é do ramo sabe que as dificuldades vão aumentar dia a dia se não houver logo um aporte [financeiro]; se não houver uma solução eficaz e rápida", disse Oliveira. "A capitalização do BRB é imprescindível. Como fazê-la é uma decisão política".
Oliveira defende que o Governo do Distrito Federal precisa garantir os meios necessários para que o BRB recupere sua credibilidade e mantenha o controle público distrital, papel fundamental para a economia da região e a execução de políticas como cartões sociais e o sistema de bilhetagem automática do transporte público.
Para César Bergo, economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), a não divulgação do balanço de 2025 e de outros documentos contábeis aprofunda a crise de confiança e expõe o BRB ao risco de multas superiores a cinquenta mil reais por dia, determinadas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários. Ele pontua que a transparência é indispensável no setor financeiro e a falta dela provoca insegurança entre correntistas e investidores, podendo afetar todo o sistema bancário.
Bergo destaca a urgência da apresentação do balanço e critica a demora na realização da assembleia geral para análise das contas de 2025 e eleição de novos membros dos conselhos da companhia, agendada apenas para o dia 30 deste mês.
"O BRB foi alvo de um golpe que lançou o banco em uma crise não só financeira, mas, principalmente, de reputação. E nem os nomes dos dirigentes que estão falando pelo banco foram aprovados pela assembleia? A crise é de confiança e [fontes do GDF] divulgam à imprensa números que não batem, contas que não fecham, de uma maneira que nenhum acionista, economista ou contador entende?", questionou o economista.
Segundo César Bergo, existem pelo menos quatro alternativas teóricas para o BRB contornar a crise: a principal seria a capitalização por meio da injeção de mais recursos financeiros pelos sócios, especialmente o Governo do Distrito Federal; outra possibilidade seria o banco obter empréstimos do Fundo Garantidor de Créditos ou de outras instituições, com o custo de juros elevados; federalização, na qual o governo federal absorveria o banco, como ocorreu com o Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) em 2008; e, por fim, a privatização.
"A federalização eu não creio que o Palácio do Planalto queira fazer, pois implicaria levar para o âmbito federal um problema que é do GDF. De qualquer forma, seja lá qual for a solução, duas coisas são certas: uma é que salvar o BRB é melhor que deixá-lo quebrar. Outra, é que qualquer que seja a decisão, ela deve ser anunciada rapidamente", finalizou Bergo.
O BRB foi procurado para comentar a situação e fornecer esclarecimentos, mas não respondeu até a publicação desta matéria. A reportagem não conseguiu, ainda, contato com a defesa de Paulo Henrique Costa.
Em comunicado, a governadora Celina Leão afirmou que a prisão preventiva do ex-presidente do BRB está sob análise do Poder Judiciário, responsável pela apuração dos fatos e julgamento. Ela reiterou que todas as providências necessárias foram adotadas desde o início, com colaboração total às autoridades competentes.