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Lula cobra coerência de progressistas em discurso na Espanha

Presidente brasileiro participa de evento global em Barcelona e critica neoliberalismo, alertando sobre avanço da extrema-direita e defendendo equidade social.

18/04/2026 às 20:29
Por: Redação

Em sua viagem ao continente europeu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em Barcelona, na Espanha, neste sábado (18), para a edição inaugural do evento Mobilização Progressista Global (MPG). O encontro teve como foco reunir ativistas e organizações de esquerda de todo o mundo, com o propósito de fortalecer a democracia e a justiça social, além de combater o avanço das ideologias autoritárias de extrema-direita.

 

Dirigindo-se a uma plateia de mais de 5 mil pessoas, que incluía outros chefes de Estado, Lula iniciou seu discurso afirmando que, no cenário global atual, ninguém deve ter receio de se identificar como progressista ou de esquerda. Ele enfatizou a importância da liberdade de expressão dentro dos limites das normas democráticas estabelecidas pela sociedade.

 

"Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade".

 

O presidente reconheceu os avanços obtidos pelo campo progressista para diversos grupos sociais, como trabalhadores, mulheres, população negra e a comunidade LGBTQIA+. Contudo, Lula salientou que a esquerda falhou em superar o modelo econômico dominante, o que, em sua análise, abriu espaço para a ascensão de forças reacionárias na sociedade.

 

"O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema", afirmou Lula.

 

Lula destacou que a coerência deve ser o princípio fundamental dos progressistas, ressaltando a necessidade de alinhar os programas de campanha com as políticas implementadas. Ele afirmou que não se pode trair a confiança da população, que, mesmo sem se considerar progressista, busca benefícios como alimentação, moradia, escolas e hospitais de qualidade, uma política climática eficaz, um ambiente limpo e saudável, e um trabalho digno com salário justo.

 

O presidente avaliou que a extrema-direita conseguiu explorar o descontentamento gerado pelas promessas não cumpridas do neoliberalismo. Essa capitalização se deu, segundo ele, por meio da disseminação de inverdades e discursos de ódio direcionados a grupos como mulheres, pessoas negras, a comunidade LGBTQIA+ e imigrantes, transformando-os em alvos de frustrações sociais.

 

Anteriormente, também em Barcelona, o presidente participou da quarta edição do Fórum Democracia Sempre, ao lado de outros líderes internacionais. Essa iniciativa foi lançada em 2024 e envolve os governos do Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. A reunião em Barcelona, organizada pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, contou com a presença dos presidentes Yamandú Orsi (Uruguai), Gustavo Petro (Colômbia), Ciyril Ramaphosa (África do Sul) e Claudia Sheinbaum (México), além do ex-presidente do Chile, Gabriel Boric.

 

Diante da audiência de ativistas progressistas, Lula enfatizou a responsabilidade dos poucos bilionários que concentram a maior parte da riqueza global pela crise socioeconômica atual. Ele criticou a falácia da meritocracia, onde, segundo o presidente, as elites impedem a ascensão de outros. Lula também apontou que a desigualdade é uma escolha política, e o compromisso progressista reside em escolher a igualdade, sempre ao lado do povo.

 

Crítica aos 'senhores da guerra'

 

Lula reiterou suas críticas aos líderes dos países com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, referindo-se a eles como "senhores da guerra". Ele lamentou os bilhões de dólares empregados em armamentos, recursos que, na sua visão, poderiam ser direcionados para erradicar a fome, resolver a crise energética e garantir acesso universal à saúde no planeta.

 

O presidente argumentou que o "Sul Global" arca com os custos de conflitos que não provocou e de mudanças climáticas que não causou. Ele descreveu essa região como sendo tratada como um "quintal" das grandes potências, sufocada por tarifas excessivas e dívidas impagáveis, e novamente vista como mera fornecedora de matérias-primas. Para Lula, ser progressista na esfera internacional significa defender um multilateralismo reformado, priorizar a paz sobre a força, combater a fome, proteger o meio ambiente e restaurar a credibilidade da Organização das Nações Unidas (ONU), que foi comprometida pela irresponsabilidade de seus membros permanentes.

 

Em outro segmento de seu pronunciamento, Lula alertou que a ameaça da extrema-direita transcende a retórica, sendo uma realidade concreta. Ele citou o caso do Brasil, onde, segundo ele, a extrema-direita planejou um golpe de Estado, orquestrando uma trama que incluía tanques nas ruas e assassinatos do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral. O presidente mencionou uma citação do Papa Leão XIV, que afirmou que a democracia corre o risco de se tornar uma fachada para o domínio das elites econômicas e tecnológicas. Lula concluiu que o papel dos progressistas é desmascarar essas forças, bem como aqueles que se declaram defensores do povo, mas governam em benefício dos mais ricos.

 

O presidente brasileiro também destacou que a democracia não é um estado final, mas um processo que exige reafirmação diária, através da melhoria efetiva da vida das pessoas, para que não perca sua legitimidade. Ele exemplificou a ausência de democracia em situações como a incerteza sobre a próxima refeição, a perda de um familiar na fila do hospital, o cansaço de uma mãe em transporte público que impede um beijo de boa noite nos filhos, a discriminação racial ou a morte de uma mulher por ser mulher. Lula concluiu que é preciso substituir o desânimo pelo sonho e o ódio pela esperança.

 

Próximos compromissos na Europa

 

Após o encerramento de sua agenda na Espanha, o presidente Lula seguirá para a Alemanha neste domingo (19). Lá, ele participará da Hannover Messe, considerada a maior feira global de inovação e tecnologia industrial, que nesta edição terá o Brasil como país homenageado. Ainda em território alemão, o presidente brasileiro tem agendada uma reunião com o chanceler Friedrich Merz.

 

A viagem europeia de Lula será concluída no dia 21, com uma breve visita de Estado a Portugal. Na capital Lisboa, o presidente brasileiro se encontrará com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro.

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