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Mortes de brasileiros escancaram cotidiano de violência no sul do Líbano

Família que viveu no Brasil morreu durante bombardeio israelense em meio à rotina de ataques contra civis

28/04/2026 às 23:34
Por: Redação

A morte de Manal Jaafar, cidadã brasileira, e de seu marido Ghassan Nader, libanês, em um bombardeio realizado por Israel no sul do Líbano no último domingo (26), trouxe à tona a realidade enfrentada diariamente pela população civil da região. O casal havia retornado ao Líbano, após viver doze anos no Brasil, com o objetivo de proporcionar uma vida mais tranquila e estável para a família.

 

Dois filhos brasileiros do casal estavam presentes no momento do ataque. Um deles, de 11 anos, faleceu no bombardeio, enquanto o outro sobreviveu e foi levado ao hospital.

 

Conforme relato do jornalista libanês Ali Farhat, amigo de longa data da família Nader, o sofrimento causado pela notícia se repetiu na comunidade libanesa, que convive frequentemente com relatos semelhantes envolvendo parentes e conhecidos afetados pela onda de ataques. Segundo Farhat, mais de 2,5 mil pessoas já perderam a vida no Líbano, sendo a maioria composta por civis que, conforme ele ressalta, não têm envolvimento nem responsabilidade com o conflito armado.

 

A família de Manal e Ghassan tomou a decisão de deixar a residência devido à intensificação dos ataques, mas optou por retornar em razão de um cessar-fogo que estava em vigor. O jornalista descreveu como decepção a sensação predominante na comunidade ao receber a notícia da tragédia, destacando o sofrimento enfrentado por tantas famílias que vivem em áreas atingidas pela violência.

 

A gente recebeu a notícia com muito sofrimento e muita tristeza. É essa notícia que a comunidade [libanesa] recebe todos os dias sobre familiares, parentes e amigos. O Líbano já perdeu mais de 2,5 mil vítimas. A grande maioria são civis, não tem nada a ver com essa guerra, não tem culpa nenhuma.

 

Ali Farhat caracterizou os bombardeios israelenses como uma tentativa de eliminar não somente a população, mas também a memória cultural e religiosa do país, atingindo mesquitas, cemitérios e residências civis, sem diferenciação de alvos. Ele afirmou ainda que não existem áreas consideradas seguras, nem mesmo na capital Beirute.

 

Israel está bombardeando a geografia do Líbano, a memória do Líbano, mesquitas, cemitérios, casas civis. Não tem nenhum ponto protegido no sul do Líbano, tampouco na capital Beirute. Israel está tentando praticar o genocídio parecido com o que praticou na Faixa de Gaza.

 

Segundo Farhat, a família Nader manteve vínculos com a comunidade libanesa em Foz do Iguaçu, no Paraná, durante o período em que viveu no Brasil. Ele relatou que, na última conversa antes da mudança definitiva, Ghassan mencionou o desejo de construir uma vida estável no Líbano, aproveitando os recursos conquistados com trabalho no comércio brasileiro, para dar maior atenção à vida pessoal, à educação dos filhos e à convivência familiar e social.

 

O plano dele era fazer uma vida estável no Líbano, com a renda que ele tinha conseguido [trabalhando no comércio aqui no Brasil]. Ele queria cuidar mais da vida dele e da família dele, queria fazer algo bem leve para conseguir dar mais tempo para os estudos e para a vida social.

 

Farhat relatou ainda que Ghassan era empresário, pesquisador, escritor e ativista humanitário, com atuação reconhecida em eventos sociais e culturais da comunidade libanesa de Foz do Iguaçu. Ele destacou que Ghassan não possuía envolvimento com governos ou forças militares, e era conhecido por seu perfil intelectual e por trabalhos sobre economia mundial.

 

No contexto dos ataques, o episódio que vitimou a família Nader ocorreu no distrito de Bint Jeil, no sul do Líbano, sendo confirmado oficialmente pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil na noite da segunda-feira (27). Desde o início da ofensiva promovida por Estados Unidos e Israel contra países da região, civis libaneses têm sido atingidos em suas casas sem qualquer aviso prévio, segundo relato de Ali Farhat, que reside no Brasil há 25 anos e mantém parentes no Líbano.

 

Dados oficiais do Ministério da Saúde do Líbano apontam que a maioria das vítimas dos bombardeios é composta por civis. O caso da família Nader exemplifica a situação de moradores que se encontravam em casa no momento dos ataques, realidade compartilhada por diversas famílias na região.

 

Melina Manasseh, também membro da comunidade libanesa no Brasil e integrante da Federação Árabe da Palestina no Brasil, comparou a ocupação israelense no Líbano ao que ocorre nos territórios palestinos, manifestando pesar diante da morte da família com cidadãos brasileiros. Para ela, o caráter expansionista da política militar de Israel resulta em tragédias semelhantes envolvendo civis.

 

Não é a primeira vez que um brasileiro é morto pelas forças da ocupação. Israel nunca cumpriu uma única resolução da ONU quanto à Palestina e ocupou de forma militar o sul do Líbano por 18 anos. A ocupação militar não é a mesma que hoje se preconiza. Essa ocupação de hoje é a mesma que se dá na Palestina, ocupação de assentamento.

 

Segundo Melina Manasseh, familiares seus vivem no norte do Líbano e em Beirute. Ela afirmou que, apesar da gravidade do ocorrido, a notícia das mortes não provocou ampla mobilização entre os descendentes libaneses no Brasil.

 

Ela comentou sobre a postura resiliente dos libaneses e palestinos, que mantêm otimismo quanto ao fim do conflito, mas criticou a falta de organização da diáspora libanesa no Brasil, que totaliza aproximadamente nove milhões de descendentes.

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