Durante a sabatina realizada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, nesta quarta-feira, Jorge Messias, indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou considerar fundamental que o Supremo evolua institucionalmente e pratique a autocontenção diante de pautas que provocam divisões na sociedade.
Ao declarar-se evangélico, Messias também ressaltou a importância do caráter laico do Estado. Ele avaliou que a percepção popular de que as cortes supremas não aceitam autocrítica e melhorias institucionais pode gerar tensões na relação entre a Justiça e a democracia. Em sua manifestação inicial, Messias destacou que vê como responsabilidade do STF permanecer aberto à evolução e ao aperfeiçoamento contínuos.
De acordo com o indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, todos os Poderes em uma República devem obedecer a normas e limitações. Messias enfatizou que esse posicionamento ocorre no momento em que o Supremo discute a elaboração de um código de ética para estabelecer regras claras sobre a atuação dos magistrados.
“Demandas da sociedade por transparência, prestação de contas, escrutínio público, não devem causar constrangimentos.”
Messias acrescentou que o aprimoramento institucional do STF pode ser um instrumento eficaz para neutralizar narrativas autoritárias voltadas a enfraquecer a atuação do Judiciário.
O indicado também afirmou que é imprescindível ao Supremo buscar aperfeiçoamento com equilíbrio institucional, a fim de manter sua relevância e o respeito público necessário. Ele apontou que o STF precisa demonstrar à sociedade que dispõe de instrumentos efetivos de transparência e fiscalização. Messias reforçou que a ética dos magistrados é o ponto de partida para o funcionamento da democracia.
Participam da sabatina 27 senadores inscritos para questionar Jorge Messias. Atualmente atuando como advogado-geral da União, Messias necessita do apoio de pelo menos 41 dos 81 senadores para preencher a vaga aberta pela aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso.
No discurso apresentado à CCJ, Messias reforçou a necessidade do STF agir com cautela e evitar tomar decisões que impactem matérias que geram grandes divisões na sociedade. Segundo ele, o tempo é um fator relevante para que debates democráticos amadureçam antes que a Corte promova alterações significativas em determinadas agendas.
“Cortes constitucionais também se afirmam por suas virtudes passivas e devem ser cautelosas em operar mudanças divisivas que interfiram em desacordos morais razoáveis da nossa sociedade”, afirmou.
Messias observou que parlamentares têm criticado o STF, alegando que o tribunal estaria assumindo funções legislativas em temas cuja responsabilidade seria do Congresso Nacional. Ele mencionou que o Supremo tem julgado matérias sob o argumento de que o Parlamento não tem deliberado sobre assuntos que exigem regulamentação segundo a Constituição.
“O comportamento não expansionista confere legitimidade democrática às cortes e aplaca as críticas – tanto as justas quanto as injustas –, de politização da Justiça e de ativismo judicial. Nem ativismo, nem passivismo. A palavra é equilíbrio.”
O indicado ao STF afirmou ainda que a Corte deve desempenhar um papel "residual" nas políticas públicas, agindo de forma contida e sem substituir gestores ou legisladores. Para Messias, o Supremo não pode atuar como protagonista nem restringir de forma excessiva direitos fundamentais.
Ao final de sua exposição, Jorge Messias fez questão de expor sua identidade cristã, afirmando ser “servo de Deus” e considerar sua condição de evangélico uma bênção e não um patrimônio, mas defendeu com firmeza o princípio da laicidade estatal.
Messias explicou que sua identidade religiosa é evangélica, porém, para ele, o Estado brasileiro é constitucionalmente laico. Ele defendeu uma laicidade clara, mas que incentive o diálogo construtivo entre o Estado e todas as manifestações religiosas.
O indicado esclareceu que o Estado laico é aquele que mantém neutralidade diante de questões religiosas, não possuindo religião oficial e mantendo separação entre as instituições políticas e as instituições religiosas.
Messias afirmou que a neutralidade do Estado em relação à religião assegura a todos o direito ao livre exercício da fé. Ele ainda declarou que um juiz que coloca suas convicções religiosas acima dos princípios constitucionais não pode ser considerado juiz.
“Firmado o respeito absoluto à laicidade, devo-lhe dizer, como servo de Deus, que os princípios cristãos me acompanham em qualquer jornada da minha vida. Tenho clareza que o Estado laico não interdita considerar a base ética cristã que cimenta a nossa Constituição. É possível interpretar a Constituição com fé e não pela fé”, explicou.
Finalizando sua apresentação na CCJ, Messias destacou não possuir ascendência familiar no Judiciário, tendo alcançado a indicação graças aos estudos, trajetória pessoal e profissional, além de sua fé e apoio de amigos e familiares.
Messias relatou ser nordestino, evangélico e filho da classe média brasileira, ressaltando que não possui tradição hereditária no Poder Judiciário. Ele atribuiu sua indicação ao estudo, trabalho, família, amigos, fé em Deus e à confiança na própria trajetória, caracterizando seu percurso como resultado de disciplina e humildade.
Texto atualizado às 11h40